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Art Déco em Campina Grande


Texto: Alcilia Afonso

Essa postagem tratará de uma breve introdução sobre o estilo Art Déco encontrado em Campina Grande, que compõe um rico acervo arquitetônico estudado por vários autores que se aprofundaram sobre o tema, como Lia Rossi(2010) e Marcus Queiroz(2008).

Para quem se interessar sobre o tema, há também um artigo escrito por AFONSO e ARAÚJO(2015) que explora esta linguagem na cidade de Campina Grande.

Esclarecendo o conceito: Art Déco e a protomodernidade. 



A linguagem Déco foi uma tendência francesa que surgiu devido a um movimento internacional de design, destacando-se no período de 1925 a 1939, se estendendo pelas artes decorativas, arquitetura, design de interiores e desenho industrial, assim como nas artes visuais, na moda, na pintura, nas artes gráficas e cinema.


Pode-se afirmar que, de certa maneira, misturou diversos estilos e movimentos, tais como, o construtivismo, o cubismo, Bauhaus, Art Nouveau, o modernismo e o futurismo.


Detalhe da Fachada do Edifício dos Correios. Praça da Bandeira. Campina Grande. Fonte: Aquarela de Isabella Eloy. Acervo Grupal_UFCG.2015



O famoso Cabaré Eldorado de Campina Grande. Fonte: Pintura de Margarete Colaço. Secretaria de Cultura do Município de Campina Grande.


A arquitetura de tendências Art Déco adotou- em nome da economia e da modernidade- as fachadas de linhas puras, libertando-se do excesso decorativo e exuberância do Art Nouveau- e agora, superfícies planas expressam os materiais, eliminando-se os desenhos simbólicos e fantasiosos. 



O termo Art Déco só veio a ser de fato empregado em 1966, fazendo referência à Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas, que ocorreu em Paris, em 1925. 

Características tais como, princípios de hierarquização, expressos em formas escalonadas presentes nas platibandas e na ênfase ao acesso principal estão presentes nesta produção, observado-se ainda que, a construção, muitas vezes, estrutura-se através de uma composição volumétrica integrando formas geométricas – prismas retangulares, elementos cilíndricos, volumes arredondados ou planos, verticais ou horizontais. 

Em prédios altos foi comum uma composição de prismas retangulares de diferentes alturas, gerando um escalonamento solidário, com ênfase na altura e busca de monumentalidade. Este período é marcado pelo rigor geométrico e predominância de linhas verticais, havendo a tendência de tornar, através da percepção, o edifício mais alto. 

Destaca-se ainda o uso do concreto armado, das esculturas com forma de animais, o uso dos tons de rosa e a geometrização das formas. 

O Art Déco tornou-se uma linguagem acessível a todas as camadas sociais: às elites, às classes médias e às classes populares- conquistou o gosto popular e disseminou-se em grandes e pequenas residências e em prédios comerciais, popularizando-se em cidades grandes e pequenas, convertendo-se em marco do cenário urbano brasileiro das décadas de 1930 e 1940. 

No Brasil, despertou o interesse das mais variadas camadas da população, não sendo aqui, exclusividade de nenhuma delas em especial, mas há de se reconhecer uma produção importante encontrada nas cidades de Goiânia, em Goiás, e de Campina Grande, na Paraíba. 

SEGAWA (1997, p.61), escreveu sobre a importância do Art Déco no inicio do século XX: 

"O Art Déco foi o suporte formal para inúmeras tipologia arquitetônicas que se afirmavam a partir dos anos de 1930. O cinema (e por associação, alguns teatros), a grande novidade entre os espetáculos de massa que mimetizava as fantasias da cultura moderna, desfilava sua tecnologia sonora e visual em deslumbrantes salas do Rio de Janeiro, em São Paulo e algumas outras capitais em verdadeiros monumentos Déco: algumas sedes de emissoras de rádio forma construídas ao gosto, como a Rádio Cultura de São Paulo, de Elisário Bahiana,ou a tardia(1948) sede da rádio jornal do Comércio de Recife, do engenheiro Antonio Hugo Guimarães. A maioria dessas construções forma demolidas." 

Conforme colocou acima Segawa, edifícios com diferentes usos, tais como cinemas, escolas, teatros, estádios de futebol, terminais de passageiros, residências, empregaram o Art Déco, e exemplos dessas edificações podem ser encontradas em obras como o Elevador Lacerda de Salvador, a Estação Ferroviária de Goiânia, a Biblioteca Municipal de Campina Grande, o estádio de Futebol do Pacaembú e o Jockey Clube de São Paulo, entre outros. 

ART DÉCO EM CAMPINA GRANDE

AFONSO (2015), em artigo que tratou sobre a preservação do patrimônio arquitetônico de Campina Grande no século XXI, observou que, como somente em 1864, o lugar da antiga aldeia campinense, após se desenvolver foi transformado em cidade, possui um acervo de bens imóveis que pode ser classificado por estilos arquitetônicos, que vão desde o neoclássico, o ecletismo, o Art déco, a linguagem moderna, até uma produção arquitetônica contemporânea com tendências variadas. 


O estilo foi adotado pelo poder público e privado na arquitetura da cidade, construindo um acervo rico, que hoje é o carro-chefe do patrimônio arquitetônico local. Fonte: Aquarela de Isabella Eloy. Acervo Grupal_UFCG.2015



"Observa-se a existência na contemporaneidade, de poucos exemplares neoclássicos, alguns ecléticos, mas, o que mais caracteriza o acervo patrimonial campinense, destacando-se no cenário regional, é o conjunto de arquitetura Art déco no centro histórico urbano (grifo das autoras), e a preservação de vários exemplares isolados modernos diluídos nos bairros periféricos ao centro." (AFONSO, 2015) 

O estilo tornou-se símbolo da grande reforma urbana empreendida pelo prefeito Vergniaud Wanderley na tentativa de modernizar a “Liverpool Brasileira”, segunda praça algodoeira do mundo, especificamente em 1936, quando ele inicia o remodelamento do centro tradicional através de várias leis de cunho sanitarista e urbanístico.


Rua no centro histórico de Campina Grande. Fonte: Pintura de  Margarete Colaço. Secretaria de Cultura do Município de Campina Grande.


O centro histórico campinense é tombado em nível estadual, através de Decreto estadual de No. 25.139 de 28 de junho de 2004, que homologou a deliberação de No.25/2003 do Conselho de proteção dos bens históricos culturais- CONPEC, órgão de orientação superior do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do estado da Paraíba- IPHAEP, que delimitou o Centro Histórico inicial de Campina Grande.

Por grande parte dos exemplares Art déco existentes estarem implantados na zona do Centro histórico, encontram-se preservados, apesar de já terem sofrido alterações antes do processo de tombamento da área.



Atual sede da Prefeitura (antigo Grande Hotel). Fonte: Pintura de  Margarete Colaço. Secretaria de Cultura do Município de Campina Grande.


Os primeiros traços modernos surgiram na década de 1930 e 1940 com pequenas modificações nas casas e edifícios que divulgaram ao público os primórdios de uma nova fase de modernidade e inovação.

São mudanças que trabalham seus elementos básicos, a caracterização de unidades elementares simples e a construção da complexidade através do simples.


Arquitetura Art Déco campinense. Fonte: Aquarela de Isabella Eloy. Acervo Grupal_UFCG.2015


Pouquíssimos prédios ecléticos sobreviveram a esse choque de ordem que em menos de 15 anos muda totalmente a feição da cidade. Construtores da região e arquitetos formados na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro montaram seus escritórios para atender ao grande número de clientes compulsórios dessa “modernização por decreto” à qual se deve a notável unidade estilística do centro da cidade. 



Apesar de boa parte do acervo histórico Art Decó , e outros estilos artísticos como o ecletismo, ter sido apagado das ruas da nossa cidade, alguns exemplares significantes como o edifício da Biblioteca Municipal, Cine Teatro Capitólio, a sede dos Correios e Telégrafos, a atual sede da Prefeitura (antigo Grande Hotel), entre outros, ainda estão preservados e tombados pela prefeitura.

AFONSO, A. ARAÚJO, C.Origem da arquitetura moderna em Campina Grande: obras precursoras e suas contribuições para a arquitetura regional. 1900-1950. Belo Horizonte: 4º seminário ibero americano arquitetura e documentação.2015.



Referências Bibliográficas


AFONSO, Alcilia. Liverpool do Brasil. Resquícios do Patrimônio industrial em Campina Grande. Proposta para novo uso de antiga estrutura industrial.Gijón: Anais da VII Jornadas Internacionais de Patrimônio Industrial.2015

AFONSO, Alcilia. A preservação do patrimônio arquitetônico de Campina Grande no século XXI. X Semana de História Política da UERJ. VII Seminário Nacional de História: Política, Cultura & Sociedade. Rio de Janeiro. 2015.

ARQUITETURA E LUGAR CG. Arquitetura art decó em Campina Grande. Em <http://arquiteturaelugarcg.blogspot.com.br/2015/06/arquitetura-art-deco-em-campina-grande.html>. Acesso em: 31 de outubro de 2015.

CG RETALHOS. Curiosidade: Centro Antigo de Campina Grande. Em <http://cgretalhos.blogspot.com.br/2011/09/curiosidade-centro-antigo-de-cgrande.html#.VjVWHrerTIV>. Acesso em: 31 de outubro de 2015.

QUEIROZ, Marcus Vinicius Dantas de. "Art Déco em Campina Grande (Pb): 

Valorização, Patrimonialização E Esquecimento". in Revista UFG / Julho 2010 / Ano XII nº 8

QUEIROZ, M. V. D. Quem te vê não te conhece mais: arquitetura e cidade de Campina Grande em transformação (1930-1950). São Carlos: Dissertação (Mestrado) – PPG-AU/EESC/USP. 2008.

QUEIROZ, Marcus Vinicius Dantas de.ROCHA, Fabiano de Melo Duarte. Caminhos da Arquitetura Moderna em Campina Grande: emergência, difusão e produção dos anos 1950. In: Diniz, Fernando (org.). Arquitetura Moderna no Norte e Nordeste do Brasil: universalidade e diversidade. Recife: FASA, 2007, p. 259 -278.

ROSSI, Lia.Art déco sertanejo e uma revitalização possível: programa Campina Grande Déco.2010. Goiás: Revista UFG. V.12, nº8, 2010.


SEGAWA, Hugo.Arquiteturas no Brasil.1900-1990. São Paulo: FAUSP.1997.

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